quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Ponto de Encontro no Centenário do nascimento de António Aleixo


Considerado um dos poetas populares algarvios de maior relevo, famoso pela sua ironia e pela crítica social sempre presente nos seus versos, António Aleixo também é recordado por ter sido simples, humilde e semi-analfabeto, e ainda assim ter deixado como legado uma obra poética singular no panorama literário português da primeira metade do século XX.
No emaranhado de uma vida recheada de pobreza, mudanças de emprego, imigração, tragédias familiares e doenças, na sua figura de homem humilde e simples, havia o perfil de uma personalidade rica, vincada e conhecedora das diversas realidades da cultura e sociedade do seu tempo. Do seu percurso de vida fazem parte profissões como tecelão, guarda de polícia e servente de pedreiro, trabalho este que, como imigrante foi exercido em França.
De regresso ao seu país natal, restabeleceu-se novamente em Loulé, onde passou a vender cautelas e a cantar as suas produções pelas feiras portuguesas, actividades que se juntaram às suas muitas profissões e que lhe renderia a alcunha de "poeta-cauteleiro".
Faleceu por conta de uma tuberculose, em 16 de Novembro de 1949, doença que tempos antes havia também vitimado uma de suas filhas.


Um dos meus poemas preferidos


Desporto e Pedagogia


Diz ele que não sei ler Isso que tem?

Cá na aldeia

Não se arranjam dúzia e meia

Que saibam ler e escrever.


P'ra escolas não há bairrismo,

Não há amor nem dinheiro. Por quê?

Porque estão primeiro

O Futebol e o Ciclismo!


Desporto e pedagogia

Se os juntassem, como irmãos,

Esse conjunto daria,

Verdadeiros cidadãos!


Assim, sem darem as mãos,

O que um faz, outro atrofia.

Da educação desportiva,

Que nos prepara p'ra vida,

Fizeram luta renhida, sem nada de educativa.


E o povo, espectador em altos gritos,

Provoca, gesticula, a direito e torto,

Crendo assim defender seus favoritos

Sem lhe importar saber o que é desporto.


Interessa é ganhar de qualquer maneira.

Enquanto em campo o dever se atropela,

Faz-se outro jogo lá na bilheiteira,

Que enche os bolsinhos aos que vivem dela.


Convém manter o Zé bem distraído

Enquanto ele se entrega à diversão,

Não pode ver por quantos é comido

E nem se importa que o comam, ou não.


E assim os ratos vão roendo o queijo

E o Zé, sem ver que é palerma, que é bruto,

De vez em quando solta o seu bocejo,

Sem ter p'ra ceia nem pão, nem conduto.


António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..."

4 comentários:

almagrande disse...

Sei que pareço um ladrão
Mas há outros que conheço
Que não parecendo o que são
São aquilo que eu pareço
A. Aleixo

Marieke disse...

Ai Almagrande
Que o homem estava tão actualizado cem anos antes..
Ou seria adivinho deste futuro presente?

O´Fartura disse...

Fermoso e sinxelo poema.
Muito Obrigado por telo compartido.

rouxinol de Bernardim disse...

Minha cara Marieke:

Aleixo é sempre actual!

A sua poesia simples e incisiva é intemporal1

Que lições ao «pão e circo» de agora, com futebol e ciclismo ainda e sempre na moda...