segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Uma estória entre muitas da formação da "minha "Costa Nova


...."A Costa Nova é um localidade balnear e piscatória, voltada para o turismo, cheia de contrastes sociais e culturais, mas rica em história e em vida. Toda a gente conhece as suas habitações típicas: os palheiros, mas poucos sabem que a Costa Nova não é apenas palheiros ou a memória destes no passado.


Ao lado da Praia da Barra, e anterior à formação desta, está, para sul, a povoação da Costa Nova do Prado, ou, mais curto ao gosto da lei da simplificação linguística, Costa Nova. Esta povoação foi fundada nos princípios do século passado por gentes de Ílhavo, que lhe teria dado o nome de Costa Nova para a distinguir da antiga costa de S. Jacinto, habitada muito antes dela. É só a partir de 1822 que há a notícia de começar a ser utilizada como praia de banhos, sendo já bastante frequentada em 1840. Ao princípio o limite norte da estância ficava no chamado Palheiro de José Estêvão (ainda existente e que vale a pena visitar). Também é a partir de 1822 que a Costa Nova tem uma capela em honra ao seu orago e protector: Nossa Senhora da Saúde.

A povoação recentemente tem-se modernizado e urbanizado, sofrendo grandemente os ataques do investimento e da especulação imobiliários, e o aumento de pequenos negócios voltados para o turismo. Os palheiros, pintados de vermelhão ou outras cores, que ainda há bem poucas dezenas de anos se alinhavam à beira da ria, têm sido substituídos por casas de alvenaria e por complexos de apartamentos turísticos. Já possuiu teatro, assembleia e cinema. Hoje possui uma rede de ruas bem esquadrinhada e está vocacionada para a época balnear (Junho a Setembro). No último domingo de Setembro faz-se uma festa em honra da Senhora da Saúde que atrai grande número de gente.


Antes de existir a ponte da Barra, a ligação da Costa Nova à edilidade ilhavense e à Gafanha da Encarnação, bem como a deslocação das pessoas costanovenses para os seus empregos do lado de cá da ria de Aveiro era feita através de uma carreira de barca, entre o cais da Costa Nova e o da Mota da Gafanha da Encarnação. Hoje vêem-se marcas dessa carreira e pode-se ainda experimentar turisticamente a viagem que outrora se fazia.

Antigamente a Costa Nova não era propriamente uma povoação, mas um agregado de palheiros habitados durante o estio e o outono por uma parte da população de Ílhavo e de outras terras próximas, composta principalmente dos pescadores de Ílhavo, cujas companhas ali trabalham naquela metade do ano somente, porque a costa não é praticável no inverno; e também de mercantéis (compradores de pescado para revender) - das famílias que ali vão fazer uso de banhos de mar -, e dos que durante aquele período ali se estabelecem com fornos de cozer pão, tabernas, mercearias, botequins e hospedarias.

Palheiros são o nome aos armazéns e casas construídas tanto nesta como nas demais costas deste litoral, em razão, talvez, de terem sido de palha, juncos ou tábua as que em tempos remotos nelas construíram. Os palheiros da Costa Nova são casas de madeira e telhados, não podendo ser de pedra e cal, por serem construídas sobre areias movediças e por elas alagadas em mais ou menos tempo, carecendo de ser levantadas e mudadas de anos a anos (claro está, antigamente).

A Costa Nova do Prado tem o seu nome assim porque: é uma "costa nova" em alternativa à "costa velha" de S. Jacinto, onde os pescadores durante tanto tempo trabalharam e que depois se transferiram para aqui devido à distância, ao tempo, à costa, e à barra que entretanto foi construída e aberta; é "prado"
porque ficava defronte da Gafanha da Encarnação e esta era verdejante e bonita, e havia também quem chamasse à Gafanha da Encarnação de Gafanha do Prado.


Algumas das famílias de Aveiro, Ílhavo e Vagos começaram a ir fazer uso de banhos de mar à Costa Nova do Prado. Isto passava-se pelos anos de 1822 a 1824, sendo por esse tempo que se começou a fazer um ou outro palheiro por conta de alguns particulares com exclusivo destino para habitação no tempo dos banhos e a efectuar nos armazéns existentes alguns melhoramentos e divisões para os alugarem a quem os não tinha seus.

Em 1840 achava-se a Costa Nova no seu auge, com muitos palheiros, alguns deles com mui sofríveis acomodações e até com tais ou quais hospedarias; concorriam a banhos muitas famílias e entre elas as principais das terras mais próximas e algumas da Beira: a pesca era abundante e os pescadores e contratadores auferiam dela razoáveis lucros.

Estranhar-se-á que os areais da Costa Nova tenham pertencido ao concelho de Ovar. Recentemente, criou-se a paróquia da Costa Nova do Prado, mas o foro civil continua a ser determinado pela Junta de Freguesia da Gafanha da Encarnação.

A Costa Nova do Prado tem sofrido os ataques do mar em Invernos dolorosos e mais agressivos, pedindo que se olhe por ela, pois ela é o garante e a protecção das gentes do lado de cá do canal da ria, propriamente a Gafanha da Encarnação e a Gafanha do Carmo. ....
Fonte: A Escola vizinha da minha..Gafanha da Encarnação

Nos Mares do Fim do Mundo


Quando li este livro..fiquei impressionada por duas razões...uma pela escrita tão real de estórias da Faina Maior que desde pequena ouço nesta minha terra de Ílhavo...depois por serem tão reais que até falavam de antepassados de amigos meus actuais..por isso e nos próximos tempos este será o ponto de encontro com...Bernardo Santareno e o seu livro de crónicas..Nos Mares do Fim do Mundo

...."António Martinho do Rosário, nascido em Santarém e médico de formação, era o nome verdadeiro de um dos maiores dramaturgos portugueses do séc. XX - Bernardo Santareno. Um dos seus primeiros livros, que publicou em 1959 e que impressiona pela sua narrativa…simples mas real…“Nos Mares do Fim do Mundo - Doze Meses com os Pescadores Bacalhoeiros Portugueses, por Bancos da Terra Nova e da Gronelândia”. Este quase livro de memórias surgiu porque devido à sua formação médica, a 1 de Abril de 1957, embarca para a pesca do bacalhau no N-M “David Melgueiro” e em 1958 faz uma segunda viagem a bordo do N-M “Senhora do Mar” prestando serviço no N-H “Gil Eanes”. É quase um diário de bordo relativo a dois anos em campanha no bacalhau, descrevendo situações e emoções, anotando histórias orais que normalmente se perdem nas ondas e na velhice dos homens….
Este será o primeiro de alguns dos contos desse livro que irei relembrar neste blogue…
Livro que impressiona quem o lê e muito mais gentes de Ílhavo como eu.
O referido excerto refere-se a um caso que se passou a bordo do lugre “Granja” e esta história, Santareno ouviu-a da boca dos homens a bordo do "David Melgueiro", conto esse já na altura passado há mais de quinze anos
"Foi no Granja, um velho lugre de três mastros, ao que me dizem já desaparecido. O Albino "algarvio" era o bobo do veleiro: não havia ninguém na companha, desde os moços de convés até aos oficiais da ponte, que não gostasse de "molhar a sopa".
Uns puxavam-lhe a camisola, outros tiravam-lhe o barrete e todos o feriam com graçolas pesadas, achincalhando-o com alcunhas e risos destemperados. O Albino ia sofrendo em silêncio e às vezes, que remédio!, chegava mesmo a emprestar aos lábios um sorriso dolorosamente pregueado. Mas no interior, lá por dentro, era uma chaga viva, um cancro que, sem tréguas, o vinha roendo: Malvados! Se lhes pudesse ser bom... Mas não podia. Enfim, uma desgraça: ele, ali no navio, era o fantoche, o bombo onde todos malhavam, o escarradoiro para onde, sem cerimónia, os outros cuspiam! Mas tantas lhe faziam que um dia... ora, ora, um dia... nada, sempre nada! Estava sozinho, não tinha ninguém por ele: como um bicho desprezível e feio... Feio! Todos lho chamavam. E cabeçudo, e torto, e marreco... Feio: de tudo, seria talvez o que mais o fazia sofrer!
Por duas vezes já, em acessos de raiva, calcara a pés juntos o espelhinho de algibeira. Ah, mas eles não sabiam ainda quem era o Albino! E daí talvez tivessem razão: em muitas horas, quase sempre!, sentia-se manso e receoso como um boi capado. Até que um dia, só até um dia!... Que se acautelassem, pois uma vez o palonça, o pobre diabo, podia perder a cabeça e... Um mar de gargalhadas apagava sempre as suas ameaças: Como os odiava, nestas alturas! E passava as noites a remoer planos de vingança, arrepios de terror e lágrimas de abandono. Então ele, Albino, não seria um homem como os outros?! Tinha que o provar, tinha que lhes mostrar do que era capaz. Era um homem, ele era um homem!
Mas os dois piores, os mais verdugos, seriam o cozinheiro Ricoca e o seu ajudante, o Mazorro: Ganhara-lhes medo, só de vê-los ficava com febre! Ainda ontem o Ricoca, à saída da cozinha, lhe passara uma rasteira de tal jeito, que ele fora estatelar-se no convés, no preciso momento em que uma grande onda galgava a amurada: Ficara todo encharcado, da cabeça aos pés. Em redor, os outros apertavam o ventre, de tanto rirem...
Ná, não podia continuar assim: perdera o gosto pela vida e sentia-se como um espantalho de eira, como uma vela esfarrapada ao vento. Os outros faziam-lhe tudo quanto queriam e ele nem reagia, sempre se ficava quedo e mudo: Verdade, verdadinha, ao cabo e ao resto, não passava dum reles cobarde. Só de pensar na mulher e no filho, sentia a cara arder de vergonha e o corpo alagado em suores frios: Rico chefe de família, não haja dúvida! Ah, mas aquele Ricoca!... A raiva que lhe tinha! E o outro, esse Mazorro do diabo, não era melhor... Pudesse ele! Tinha que poder: ou arranjava coragem para tirar vingança daqueles dois, ou deitava-se ao mar. E, noite após noite, foi acumulando projectos, imaginando torturas... Mas vinha a manhã e era como se o vento marítimo lhe apagasse o lume das veias: cada dia mais amarfanhado, mais triste. Uma miséria, uma vergonha! Aquilo tinha que acabar: ou ele, ou os outros dois! Daquela noite não passaria. Mas como? Sòzinho, apenas com as suas próprias forças, não podia: estava mais que visto.
E, contra o seu costume, naquela tarde, logo ao jantar, bebeu fartamente. E depois continuou... até sentir fósforos de lume acenderem-se-lhe na cabeça. Os da companha, admirados, riam e davam-lhe palmadas nas costas. Então, veio o Ricoca: "EH, ALBINO! EH, ALGARVIO!, ATÃO O QUE É ISSO, HOME? QUERES AFOGAR AS MÁGOAS?... CALEM-SE PRAÍ, RAPAZES: NA SABEM QUE ELE INDA NA RECEBEU CARTAS DA FAMÍLIA? SÃO COISAS QU´ACONTECEM A CALQUER MORTAL: SE CALHAR A MULHER..."
E os risos chocarreiros apertaram-no, como um círculo de chumbo a ferver. Um pouco cambaleante, o Albino conseguiu erguer-se à altura do cozinheiro: olhos nos olhos do inimigo, as mãos contraídas nos bolsos, os dentes arreganhados como os dum lobo, o "algarvio", por momentos e em silêncio, bafejou com o seu hálito azul espesso a cara surpreendida do Ricoca; depois, de súbito, soltou uma gargalhada impressionante, estridente e sacudida como um soluço e, sem palavra, afastou-se precipitadamente dali. Desta vez os pescadores não chicanaram: antes ficaram calados, inquietos, num vago pressentimento de perigo.
E realmente foi nessa mesma noite (quantos, passados já mais de quinze anos, ainda a recordam angustiados!) que o Albino, mais conhecido no mar pelo "algarvio", esfaqueou barbaramente, enquanto dormiam nos beliches, o cozinheiro Ricoca e o seu ajudante Mazorro: Cego de fúria, bêbado de vinho e de sangue, deu facadas à toa, no peito, no pescoço... por onde achou carne penetrável! Quando, enfim, conseguiram arrancar-lhe a lâmina das mãos, o Albino mostrava a face tinta de vermelho e, em uivos lamentosos, chorando e rindo convulsivamente, repetia baixinho: "Ai a minha mulher... ai, o mê filhinho... estão desgraçados, estão desgraçados!..."
E o "algarvio" foi logo amarrado ao mastro do meio, com guarda permanente. Toda a noite ondeou, em volta do assassino, uma vaga crepitante de archotes. O vigia recebera ordem para disparar contra quem quer que tocasse no preso: Só por isso, o Albino não foi estrangulado naquele anel de lume, movediço e feroz. Quando a madrugada veio, o Albino, esfarrapado, sujo de sangue, estava roxo de frio e de terror! A cada ameaça, a cada impropério, a cada escarro que lhe lançavam os da companha, o homem só gemia: "AI, O MÊ FILHINHO... AI, O MÊ FILHINHO!..." Mais não dizia. E, nem a neve que incessantemente caía, nem as ondas do mar que mais duma vez o cobriram, puderam limpá-lo daquele sangue.
Depois levaram-no para o "Gil Eannes". Aí, mais compreensivos, deixavam-no andar à solta pelo navio. Mas ele nunca mais quis falar. E mal comia. De noite, ouviam-no chorar. O comandante, condoído, tentava animá-lo: o Albino sorria tristemente, abanava a cabeça e, sem palavra, punha os olhos no chão. Assim sempre. Foi ainda com este mesmo sorriso triste, sem ódio nem fúria, que, naquela manhã de procela, o Albino galgou a amurada do Gil Eannes para se lançar ao mar revolto. Houve quem o tivesse visto, neste preciso momento: e todos afirmam que ele cumpriu o acto serenamente, sem a costumeira precipitação desesperada, sem a mínima atitude ritual, nada disso...simples , naturalmente, com o tal sorriso triste e infantil a chorar-lhe nos lábios. Lá ficou. Não foi possível salvá-lo….”

Fonte: Blogue ”Caxinas de Lugar a Freguesia”

in “Nos Mares do Fim do Mundo - Doze Meses com os Pescadores Bacalhoeiros Portugueses, por Bancos da Terra Nova e da Gronelândia”. - Bernardo Santareno 1959

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Sandro G



Os Açores não são só as belas paisagens..não são só as viagens de veleiro..as idas ao Peter's beber uns gins...são também problemas sociais graves..que o digam os retornados americanos ....desenraizados..são também a fome e miséria dos meninos de Rabo de Peixe

Exposição de fotografia" Meu Nome Mar"


Ilhavo além de outras coisas muio boas (é por isso que cá vivo) tem um Museu Marítimo...espreplêndico...está a decorrer lá..desde Novembro..uma belissíma exposição de fotografia relacionada com...MAR..visitem...vale a pena..até dia 29 de Fevereiro

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Prova importante na "minha" ria



Remo: Selecção da Rússia triunfa na XXII edição da descida da Ria de Aveiro.

A selecção nacional da Rússia, que se encontra a estagiar em Portugal para preparar o apuramento para os Jogos Olímpicos de Pequim, venceu a XXII edição da Descida da Ria de Aveiro. Dominou a regata e não deu hipóteses aos seus adversários. Mesmo partindo numa manga mais fraca, impôs um elevado ritmo desde a largada e efectuou o melhor tempo 12,15 minutos, deixando o segundo lugar a mais de 16 segundos de diferença. Para o segundo e terceiro lugar, Caminhense e Náutico de Vigo vieram par a par desde o inicio da regata alternando consecutivamente a liderança da manga, acabando os espanhóis por serem mais fortes no final e ficarem com a medalha de prata. Nas restantes posições destaque para o Clube dos Galitos, que largando na quinta posição, efectuou uma regata de trás para a frente, ultrapassando os ingleses do Rowing London Club e o Real Clube Fluvial Portuense acabando em terceiro lugar da manga, quarto tempo da geral. Na prova feminina, a consagrada equipa do Real Clube Fluvial Portuense voltou a vencer e coloca-se em vantagem para no próximo ano arrecadar definitivamente o troféu cidade de Aveiro, uma vez que já conta com duas vitórias consecutivas.
Num dia de excelentes condições para a prática de remo olímpico, a edição deste ano contou com a maior internacionalização de sempre: uma equipa Nacional da Rússia, um Clube de Londres e duas equipas do Naútico de Vigo para além das principais equipas nacionais.

Em 21 de Janeiro de 2008-www.terranova.pt

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

A minha outra Terra


Falei em posts anteriores no privilégio que é morar em Ilhavo...não posso no entanto e daí a razão de lhe dedicar as fotos de hoje à minha outra terra..a terra onde nasci..onde vivi a minha meninice...fica do outro lado do Rio Miño...pertence à região autónoma da Galiza------PONTEAREAS...além de outras coisas Ponteareas e muito visitada e conhecida em toda a Espanha pelas suas festas de Corpus Christi...onde em parceria com gentes das terras de Teide em Tenerife fazem as mais lindas ruas de flores naturais que conheço...tendo sido várias vezes os Ponteareanos convidados a ornamentar a Praça de S. Pedro em Roma..seguem-se as fotos...

domingo, 6 de janeiro de 2008

e mais....

e mais...

Costa Nova...mais fotos para fazer inveja


Digam lá se não é um privilégio morar aqui

Ilhavo..e arredores


Neste ponto de encontro também chegou a hora de falar da terra onde vivo..Ílhavo...concelho a que pertence a mais linda praia de portugal..Costa Nova......Ilhavo....fica pertinho do mar...rodeada de canais e marinhas...a Ela um ilustre desta terra de marinheiros dedicou este poema

Ílhavo, heróico poema,
Escrito em sangue no mar!
Tua canção é um tema
Que todos sabem cantar.
Terra de heróis marinheiros,
De heroísmo sem igual!
Sempre honrando em seus veleiros
O nome de Portugal.
Marinhas, Sol, tricaninhas
Azenhas sempre a chorar
Os sinos das capelinhas
Chamam o povo a rezar.
Ria sonhadora e esquiva
Que o mar não sabe entender
É ele quem lhe dá vida
No mar ela vai morrer.
Morre o Sol lá no poente
Num adeus emocionante
Diz adeus chorando à gente
Beijando o mar soluçante.
Ílhavo meu lindo amor
Noiva linda dos poentes
Brilhas e não tens fulgor
Não tens coração e sentes.
Moliceiros aprumados
Lembram gaivotas voando
São barcos estilizados
Ninfas esbeltas sonhando.
Céu azul noites serenas
Ao longe bramindo o mar
Canais planuras amenas
Velas ao longe a acenar.

Inês a galega

Nada como esta estória de amor..este ponto de encontro para edificar pontes entre dois povos..nunca notícia houve depois em que se falasse tanto de Portugal e da Galiza...

"...Muito foi cantada e tão bem melhor
A trágica história de Pedro e de Inês
Ousarei agora falar desse amor
Assim começando: “Era uma vez...”
Uma Inês galega, prima e muito bela
E dela canta o poeta um colo de garça
Da graça que um Pedro soube apurar nela
Feito amor tão grande, tão maior desgraça
Bela Inês, galega, de Castro e aventura
De Pedro, a Constança dado por dote real,
Foi paixão ardente, a mais crua e pura,
Que de tão constante foi aos dois fatal
Por real mercê, enleios de estado,
Cada beijo dado, suspiro ansioso,
O enlevo de amantes traz ao rei cuidado
Do amor cuidando por demais perigoso
E a Inês, irmã de Castros galegos,
Do infante Pedro enlevo do olhar,
Se fará mais bela nos desassossegos
Que os régios medos irão a matar
Se nos corpos jovens forte era o amor
E farto o afecto que aos dois consumia
Além da paixão, urgente candor
Três filhos a dádiva que esse amor unia
É Inês amante e mãe e rainha
Desse Pedro infante, a mais bem amada
Sob a sombra vil da traição mesquinha
Conspirando ânsias de a ver degolada
Pois Afonso é cego, rude, fero e bruto
Perde-se de pai e de avô, que é rei
Perde-se da vida nessa cor de luto
Que é razão de estado, não do amor a lei

Uma adaga fria rasga a carne viva
E a lâmina afoga a angústia na voz
Jaz Inês já morta e o seu sangue aviva
No chão empedrado pegadas do algoz

Aziago o dia, à vida adverso,
Vitória da bruta crueza do interesse
E Pedro pressente do amor o inverso
O ódio tremendo que o peito arrefece
Insana essa raiva, peito em chaga ao céu
Punhais de vingança, de orgulho ferido
Morta a sua amada, o pai lhe morreu
Que só por ser rei se terá valido
Na fúria que o ódio a razão destempera
Trementes as mãos, o olhar brilhante
Como um louco quase, quase besta fera
Persegue os algozes, da morte mandante
Outros corações D. Pedro cobiça
Pelo coração frio da Inês perdida
E cruento empunha o punhal da justiça
Cobrando pelo sangue o sangue da vida
E assim se conclui quase em louvaminha
De tão grande amor, tão breve o instante
Daquela que foi já morta rainha
E daquele que além da morte foi amante...."
Autor: Não sei...

domingo, 30 de dezembro de 2007

Canción para Rosalía Castro

Não posso despedir o Ano Velho sem colocar aqui "coisas" que foram importantes neste tempo...assim para partilhar contigo quem quer que sejas..um dos meus poemas de cabeceira...¡
"....Érguete, miña amiga,
que xa cantan os galos do día!
¡Érguete, miña amada,
porque o vento muxe, coma unha vaca!
Os arados van e vén
dende Santiago a Belén.
Dende Belén a Santiago
un anxo ven en un barco.
Un barco de prata fina
que trai a door de Galicia.
Galicia deitada e queda
transida de tristes herbas.
Herbas que cobren teu leito
e a negra fonte dos teus cabelos.
Cabelos que van ao mar
onde as nubens teñen seu nidio pombal.

¡Érguete, miña amiga,
que xa cantan os galos do día!
¡Érguete, miña amada,
porque o vento muxe, coma unha vaca!...
LORCA

sábado, 29 de dezembro de 2007

Poema da malta das naus


O Ano está a acabar..é sábado a nostalgia do mar bateu ..fui passear perto dele...veio-me de imediato à memória este poema que quero partilhar aqui

Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do Sol.
Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo,
pelote de vagabundo,
rebotalho de gibão.
Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das praias,
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.
Chamusquei o pêlo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me as gengivas,
apodreci de escorbuto.
Com a mão esquerda benzi-me,
Com a direita esganei.
Mil vezes no chão, bati-me,
outras mil me levantei.
Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.
Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.
Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse, fui eu.
O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
nas praias de Portugal.
António Gedeão

sábado, 22 de dezembro de 2007

A Lenda do Barco Moliceiro da Ria de Aveiro

"...Há muitos, muitos anos - nem a velhinha que me contou, quando eu era menina, sabia quantos, - um pescador da Ria de Aveiro ouviu uma mulher a cantar e logo se apaixonou por ela só pela beleza da sua voz. Chamava-se Ramiro e era órfão de pai e mãe, tendo sido criado pela madrinha, uma solteirona bastante feia, baixa e gorda, de forte buço, que nunca encontrara quem gostasse dela para casar, embora tivesse um coração de pomba, terno e doce.
Ramiro vogava pelas águas espelhadas da Ria e foi guiando o barco para o sítio de onde vinha aquele doce cantar, deparando com uma jovem que se banhava, como se estivesse de pé, pois só se lhe via o corpo da cintura para cima, sem qualquer peça de roupa. Ela não fugiu nem parou de cantar, enquanto o pescador se aproximava. Ao vê-lo junto a si, sorriu-lhe e estendeu-lhe a mão, que Ramiro agarrou entre as suas, ao mesmo tempo que o coração acelerava os seus batimentos.
Era bela como uma princesa, com longa cabeleira de algas caindo-lhe pelas costas e torneando-lhe os peitos fartos e erectos. A sedosa pele era da alvura da areia da praia e os olhos tinham a cor verde do mar sem fundo. Os braços, compridos e esguios, terminavam em mãos de dedos finos, que iam movendo a água em seu redor, em gestos serenos e calmos, como se a afagasse.
Conversaram longamente e então ele disse-lhe:
- Amo-te e quero casar-me contigo!
A jovem sorriu e respondeu:
- Seria para mim uma grande felicidade casar-me contigo, pois nunca vi um homem mais belo e mais forte do que tu, mas, infelizmente, não pode ser. Eu não sou uma mulher, mas uma sereia.
Soltou a mão que o pescador tinha agarrada e deitando-se de costas na água, mostrou-lhe como a parte inferior do seu corpo tinha a forma de peixe, com cauda e escamas douradas, rebrilhando ao Sol.
- Sou a filha mais nova do Rei dos Mares e estou destinada a um Tritão, que me fará infeliz, porque não lhe tenho amor - continuou, começando a chorar e as lágrimas eram pérolas pequeninas, que ficavam a boiar, à sua volta.
- Não me importo que não sejas mulher - retorquiu ele. - Casa comigo e construirei para nós uma casa, metade em terra, para mim, e metade na Ria, para ti.
- Isso não pode ser! - insistiu ela. - O Tritão matava-me, porque é muito mau e feroz. Se eu pudesse transformar-me em mulher, então, sim, poderia casar contigo, mas nós sabemos que tal nunca será possível.
Estava muito triste agora a bela sereia. Atirou-lhe um beijo na ponta dos dedos, mergulhou e desapareceu.
Ramiro, antes de lançar a rede para pescar, ia todos os dias ao local onde tinha visto a sua amada, mas ela não tornou a aparecer. Assim, na sua faina diária, ora suspirava, ora cantava umas trovas tristes, que ele compunha na altura. Era o peixe que lhe dava o sustento para si e para a madrinha. Por vezes, ao cair do Sol, quando puxava a rede, julgava ver reflectida na água o rosto querido da bela sereia.
A madrinha, conhecedora daquele sofrimento e querendo-lhe como se seu filho fora, disse-lhe um dia:
- Devias ir à ti Bárb'ra, que é mulher de ciência. Talvez ela saiba uma maneira de transformar a tua sereia em mulher. Eu gostava muito de te ver feliz...
- Vou, sim, madrinha - respondeu o rapaz. - Por ela eu farei tudo!
- Então, tens de ir sozinho e de noite, que ela só tem poderes depois de se pôr o Sol.
Assim, ao morrer a tarde de um certo dia, ele meteu pés ao caminho, andando muito tempo sobre as dunas, até chegar a uma choupana sobranceira ao mar. O vento forte empurrava-o para trás e ele fazia um esforço redobrado para continuar a caminhar; terríveis relâmpagos cortavam o céu no escuro da noite, obrigando-o a fechar os olhos para não ficar cego; tenebrosos trovões faziam tremer a terra e a chuva era tanta, que lhe parecia que os próprios ossos estavam encharcados. Cheio de coragem, indiferente à adversidade da Natureza, bateu à porta da choupana, gritando:
- Ti Bárb'ra! Ó ti Bárb'ra!
Daí a pouco a porta abriu-se e Ramiro viu uma velha toda vestida de negro e com uma vela na mão, cuja chama tremulava com a ventania cá de fora.
- Entra, filho! - disse ela, com uma voz que lembrava uma gaita desafinada. - Eu sabia que vinhas.
Apesar de valente como poucos lá da terra, Ramiro hesitou por um instante, perante aquela figura sinistra, que mais parecia já não ser deste mundo, de faces cor de terra, um lenço preto à volta da cabeça, de onde caíam umas farripas de cabelo completamente branco, nariz afilado como uma faca, curvo como o bico do mocho, e uns olhos pequeninos, encovados, escondidos num montão de pregas da pela toda engelhada.
- Entra, filho! Não tenhas medo! - insistiu a velha.
Lá dentro havia uma fogueira e uma panela de barro sobre uma trempe, de onde saía um vapor que se desfazia no ar. As paredes de madeira davam a impressão de estar dançando com o reflexo das labaredas. Ao fim de algum tempo, começou a perceber que havia uma mesa no meio da choupana e que três gatos pretos dormiam ao pé do lume, aquecendo-se no braseiro.
- Ti Bárb'ra, eu venho cá por causa de - começou Ramiro.
- Não precisas de contar, meu filho, que eu sei tudo! Senta-te aqui à mesa!
Lá fora, o temporal continuava. A chuva e o vento faziam abanar a cabana, como se a quisessem derrubar. Sentaram-se à mesa, em bancos de madeira, um de cada lado, de modo que ficaram frente a frente. Ramiro viu então uma caveira sobre a mesa e teve um sobressalto.
- Não te assustes, meu filho! - tornou a velha. - É nisto que se transformam as belezas do mundo, os bons e os malvados, os ricos e os pobres. Eu sei que gostarias de ver a tua sereia transformada em mulher. Vou-te dizer o que tens de fazer. Não é difícil, mas desde já te aviso: o que vais fazer só pode ser feito uma vez; se correr bem, a tua amada sairá das profundezas das águas em forma de mulher e assim permanecerá para sempre; se correr mal, nunca mais a verás, nem mesmo sob a forma de sereia.
- Estou disposto a tentar seja o que for - assegurou Ramiro.
Então, a velha explicou tudo, tim-tim por tim-tim:
- Primeiro, vais construir uma casa de madeira, na duna, no sítio que chamam Costa Nova, pintando-a às riscas da cor que mais gostares, alternando com branco, por causa do mau-olhado; depois, vais pescar a Lua Cheia.
- Pescar a Lua Cheia? - perguntou ele, incrédulo.
- Foi isso mesmo que eu disse - continuou a velha. - Metes-te no barco numa noite de Lua Cheia, vais vogando até onde vires o astro reflectido na água. Aí, paras e lançando a rede, puxa-la devagar, de modo que traga a Lua inteira lá dentro. Então, só tens que ir até à casa nova e atirar a rede para o seu interior e logo verás a mulher que foi sereia a sair da água e a entrar em casa. Pode parecer que é tudo fácil, assim, mas o grande problema é que nem a Lua te pode ver nem pode haver o menor ruído até que chegues a casa com a Lua dentro da rede. Não te esqueças! Ao mais pequeno barulho, estará tudo perdido. Ah! ainda uma outra coisa: não podes contar isto a ninguém, nem mesmo à tua madrinha. Para te não esqueceres de nada, repete lá tudo até haveres decorado todos os passos a seguir!
Três meses levou a fazer a casa e a preparar o moliceiro, pondo na parte superior da proa um acrescento em forma de quarto crescente, o qual, cobrindo-o, não deixaria que a Lua o visse. Numa noite de Lua Cheia, meteu-se no barco, foi até onde se via a Lua toda reflectida na água, atirou com cuidado a rede em toda a sua volta e foi puxando, vendo com satisfação que a bola branca vinha dentro dela. Seguiu então na direcção da casa que fizera, aproou na areia e saltou para terra, sempre com a rede fechada na mão e a bola luminosa lá dentro aprisionada. Foi então que o silêncio foi quebrado, porque uma gaivota que dormia na praia ia sendo pisada por Ramiro e levantou voo a grasnar, cheia de medo. Quando o grito da ave atravessou o silêncio da noite, a bola branca desapareceu de dentro da rede e tudo ficou perdido.
O pescador tornou ao barco, navegou até umas covas que havia do outro lado da ria, saltou em terra, deitou-se no chão e chorou mil dias e mil noites sem parar.
As lágrimas foram tantas, que encheram as covas e o Sol, secando a água, deixou-as cheias de sal.
Tudo isto se passou há muitos, muitos anos, mas ainda hoje se podem ver as salinas, que são o sal das lágrimas que Ramiro chorou, tal como muitas casas que depois fizeram na Costa Nova e, porque gostaram da que ele tinha feito, lhe seguiram a traça. O moliceiro, esse, continua a apresentar aquela proa em forma de quarto crescente..."
Autor...Não sei...anda por aí

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Quociente Apaixonado...

....E porque tem tudo a ver comigo...

"...Um Quociente apaixonou-se
Um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base...
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo ortogonal, seios esferóides.
Fez da sua
Uma vida
Paralela à dela.
Até que se encontraram
No Infinito.
"Quem és tu?" indagou ele
Com ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
* O que, em aritmética, corresponde
A alma irmãs
Primos entre si.
E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz.
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Rectas, curvas, círculos e linhas senoidais.
Escandalizaram os ortodoxos
das fórmulas euclideanas
E os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas
e pitagóricas.
E, enfin resolveram se casar-se
Constituir um lar.
Mais que um lar.
Uma Perpendicular.
Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e
Diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.
E casaram-se e tiveram
Uma secante e três cones
Muito engraçadinhos.
E foram felizes
Até aquele dia
Em que tudo, afinal,
Vira monotonia.
Foi então que surgiu
* Máximo Divisor Comum...
Freqüentador de Círculos Concêntricos.
Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.
Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo.
Uma Unidade.
Era o Triângulo,
Tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era a fracção
Mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a
Relatividade.
E tudo que era Luxuria passou a ser
Moralidade..."
Autor desconhecido..poema conhecido de sempre

Lorca e o seu encontro com a Morte

E porque ainda não tinha escrito nada na língua de castela..o meu encontro com LORCA

La Cogida y la Muerte
Un ataúd con ruedas es su cama
a las cinco de la tarde.
Huesos y flautas suenan en su oído
a las cinco de la tarde.
El toro ya mugía por su frente
a las cinco de la tarde.
El cuarto se irisaba de agonía
a las cinco de la tarde.
A lo lejos ya viene la gangrena
a las cinco de la tarde.
Trompa de lirio por las verdes ingles
a las cinco de la tarde.
Las heridas quemaban como soles
a las cinco de la tarde,
y el gentío rompía las ventanas
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
¡Ay qué terribles cinco de la tarde!
¡Eran las cinco en todos los relojes!
¡Eran las cinco en sombras de la tarde!"
Lorca

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Imagina...se fosse assim

...E porque neste ponto de encontro não existem...fronteiras....

Imagine


"...Imagine there's no heaven,
It's easy if you try,
No hell below us,
Above us only sky,
Imagine all the people
living for today...

Imagine there's no countries,
It isnt hard to do,
Nothing to kill or die for,
No religion too,
Imagine all the people
living life in peace...

Imagine no possessions,
I wonder if you can,
No need for greed or hunger,
A brotherhood of men,
imagine all the people
Sharing all the world...

You may say I'm a dreamer,
but Im not the only one,
I hope some day you'll join us,
And the world will live as one..."

Funeral Blues

E...porque é dos mais lindos poemas de amor..

"...Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bane,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crêpe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Paul away the ocean and sweep up the wood;
For nothing now can ever come to any good..."


W.H. Auden

La Boheme

Adequado ao tema do blog agora iniciado

"....
Je vous parle d'un temps
Que les moins de vingt ans
Ne peuvent pas connaître
Montmartre en ce temps-là
Accrochait ses lilas
Jusque sous nos fenêtres
Et si l'humble garni
Qui nous servait de nid
Ne payait pas de mine
C'est là qu'on s'est connu
Moi qui criait famine
Et toi qui posais nue
La bohème, la bohème
Ça voulait dire on est heureux
La bohème, la bohème
Nous ne mangions qu'un jour sur deux

Dans les cafés voisins
Nous étions quelques-uns
Qui attendions la gloire
Et bien que miséreux
Avec le ventre creux
Nous ne cessions d'y croire
Et quand quelque bistro
Contre un bon repas chaud
Nous prenait une toile
Nous récitions des vers
Groupés autour du poêle
En oubliant l'hiver

La bohème, la bohème
Ça voulait dire tu es jolie
La bohème, la bohème
Et nous avions tous du génie

Souvent il m'arrivait
Devant mon chevalet
De passer des nuits blanches
Retouchant le dessin
De la ligne d'un sein
Du galbe d'une hanche
Et ce n'est qu'au matin
Qu'on s'assayait enfin
Devant un café-crème
Epuisés mais ravis
Fallait-il que l'on s'aime
Et qu'on aime la vie

La bohème, la bohème
Ça voulait dire on a vingt ans
La bohème, la bohème
Et nous vivions de l'air du temps

Quand au hasard des jours
Je m'en vais faire un tour
A mon ancienne adresse
Je ne reconnais plus
Ni les murs, ni les rues
Qui ont vu ma jeunesse
En haut d'un escalier
Je cherche l'atelier
Dont plus rien ne subsiste
Dans son nouveau décor
Montmartre semble triste
Et les lilas sont morts
La bohème, la bohème
On était jeunes, on était fous
La bohème, la bohème
Ça ne veut plus rien dire du tout
..."